27 de maio de 2010

A TRISTE PARTIDA - PATATIVA DO ASSARÉ


Setembro passou.
com oitubro e novembro.
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre
do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês
ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença
com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá,
porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata,
buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra
descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro,
pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço,
que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva!
tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando
segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro,
meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo,
que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino
não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro,
o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece
feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro
se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive,
que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre
no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista,
partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte,
já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado,
falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

- De pena e sodade,
papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta:
- Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena,
tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra,
coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando,
com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso,
nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo
- sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha,
da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano,
três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode,
só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia
das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito
sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado,
sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando,
vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra
tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista,
tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.


Patativa do Assaré, 1966
]

Nota: Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956, Cantos de Patativa, em 1966.
Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. "Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão", declamava.
Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos trocou uma ovelha do pai por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado: era o Patativa do Assaré.
Como todo bom sertanejo, Patativa começou a trabalhar duro na enxada ainda menino, mesmo tendo perdido um olho aos 4 anos. No livro "Cante lá que eu canto cá", o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para "ser poeta de vera é preciso ter sofrimento". Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. De seus 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, "já disse tudo que tinha de dizer". Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome.

Um comentário:

Rubem Barbosa Chaves disse...

Sempre fico emocionado e lacimejo toda vez que leio "a triste partida". Para mim é o mais completo poema da literatura brasileira a retratar o sofrimento de um povo. Sinto-me honrado de ter nascido no Nordeste.