9 de julho de 2009

A FONTE DE SANGUE - CHARLES BAUDELAIRE


Tenho a impressão de que meu sangue em onda escorre,
Rítmico soluçar de nascente que morre.
Ouço-o bem a escorrer num murmúrio de vaga,
Mas eu tateio em vão à procura da chaga.

Através da cidade, e pelas estacadas,
Faz as ilhas nascer por todas as calçadas,
Desalterando a sede a cada criatura
O seu fluxo que sempre o universo púrpura.

Muitas vezes pedi a vinhos de prazer
Adormecerem só um dia o horror que mina;
O vinho aguça o olhar e torna a audição fina!

Eu procurei no amor um sono de esquecer;
E é-me somente o amor um colchão de punhais
Em que eu dou de beber às amadas fatais!


Charles Baudelaire,1840
(Tradução de Cirne de Abreu)


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Nota: Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, a 9 de abril de 1821. Baudelaire é tido como um dos maiores poetas da França de todos os tempos. Alguns o consideram um ensaísta do parnasianismo, ou um romântico exacerbado. De atuação ousada, tornou-se um ícone no século XX influenciando a poesia mundial de tendências simbolistas, inclusive no Brasil com Teófilo Dias. De sua obra, derivam Rimbaud, Verlaine e Mallarmé.
Seus últimos anos foram obscurecidos por doenças de origem nervosa. Após uma vida repleta de atribulações, Baudelaire morreu em Paris, no dia 31 de Agosto de 1867 nos braços de sua mãe, acometido pela paralisia geral.
Seu talento, capacidade intelectual e percepção romântica, só foram totalmente apreciadas após sua morte. Tanto um Baudelaire, em sua face crítica e ácida, como o poeta confessional e espontâneo; mas, principalmente, como a totalidade de sua obra e o devido reconhecimento que lhe é atribuído.


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